Jorge Oliveira ajudou a impulsionar os pontoons no Brasil e deixou um legado à família
Quando Jorge Manuel Rodrigues Oliveira chegou ao Brasil aos quatro anos, vindo de Portugal com a família em busca de uma vida melhor, barcos ainda não faziam parte de sua história. Décadas depois, deixaria como legado a Fluvimar, fabricante paranaense de embarcações que completa 35 anos em 2026 e reúne cerca de 200 funcionários, segundo a família. O empresário faleceu aos 70 anos, após transformar uma aposta nos pontoons em uma das viradas do negócio. Hoje, a companhia que construiu segue conduzida pela mulher, Yolanda, e pela filha Raquel.

A disposição para empreender apareceu cedo. Jorge nasceu em Vale de Ourém, em Portugal, e atravessou o Atlântico ainda criança com o pai. A família buscava melhores oportunidades no Brasil. O pai trabalhava com madeira e chegou a manter uma madeireira em Maringá, no Paraná. Jorge cresceu, portanto, em um ambiente em que trabalho e negócio faziam parte da construção de uma nova vida no país.

Antes das embarcações, veio o combustível. Seu primeiro trabalho independente dos negócios do pai foi em um posto de gasolina. A entrada no setor náutico aconteceria logo depois, quando surgiu a oportunidade de participar da fabricação de barcos de alumínio. Era um mercado que Jorge ainda precisava conhecer tecnicamente, mas no qual enxergou potencial para empreender.

A partir daí, foi aprender por dentro. Aproximou-se da produção, absorveu o conhecimento de quem já dominava o ofício e passou a entender materiais, estruturas e processos. A experiência administrativa se encontrou, aos poucos, com uma curiosidade crescente pelo próprio produto. Em 1991, nascia a Fluvimar.
A filha Raquel Oliveira lembra que seu pai, embora nunca tenha cursado engenharia, desenvolveu uma relação quase intuitiva com a construção das embarcações. Gostava de observar peças, metais e estruturas, entender seu comportamento e buscar maneiras de aprimorá-los. Se percebia, por exemplo, que outro barco apresentava determinada instabilidade, queria descobrir como desenvolver uma estrutura diferente. “Meu pai era uma espécie de ‘engenheiro não formado’, costumávamos dizer”, conta.

A companhia cresceu fabricando barcos e lanchas de alumínio e chegou a produzir cerca de 200 pequenas embarcações por mês. Mas uma das decisões que mais mudariam a proporção do negócio só viria quase três décadas depois.
Em 2019, Jorge começou a observar os pontoons, embarcações bastante difundidas nos Estados Unidos, mas ainda pouco conhecidas no Brasil. Havia fabricantes por aqui, segundo a própria família, mas ele enxergou espaço para explorar a categoria a partir da experiência que a Fluvimar já havia acumulado com embarcações de alumínio.
“Ele começou a fazer os barcos e a testar. Meu pai tinha muito isso de experimentar, observar o que funcionava, ajustar e testar de novo. Não colocava simplesmente um produto no mercado; queria usar, entender cada detalhe e ter certeza de que estava do jeito que imaginava antes de oferecer para alguém”, conta Raquel.
O primeiro pontoon foi construído para uso da própria família. O teste funcionou. A experiência virou fabricação em série e abriu uma nova fase para a empresa.

A aposta mudou a escala do negócio. Hoje, a Fluvimar fabrica pontoons, barcos e lanchas, vendidos por uma rede de revendedores espalhada pelo Brasil e também no Paraguai.

Segundo a família, a Fluvimar passou de cerca de 60 para aproximadamente 200 funcionários em poucos anos, e o faturamento atingiu seis vezes o patamar anterior à entrada dos pontoons. A expansão exigiu reforçar a área administrativa e ampliar a estrutura fabril.
A caminhonete que levava dez barcos
Muito antes dessa expansão, uma cena já ajudava a revelar a relação de Jorge com a paixão pelos barcos.
A filha Raquel, hoje com 34 anos, conta que nasceu quando a Fluvimar já existia. Uma de suas lembranças mais marcantes da infância é olhar para a frente do prédio onde a família morava e encontrar a caminhonete do pai carregada com cerca de dez barcos. “Todos os vizinhos falavam: ‘Meu Deus, como é que essa caminhonete consegue carregar tanto barco?’”, recorda.
Ela lembra que o pai viajava para diferentes regiões, fazia questão de realizar as entregas e orientava os compradores. Não era um fundador distante da produção: acompanhava o barco da fábrica ao cliente.
“Ele não fazia muita cerimônia com o título de dono. Quando alguém aparecia procurando pelo proprietário, ele brincava dizendo que era o segurança e ia chamar outra pessoa para atender o visitante. Ele preferia estar próximo do trabalho a enfatizar sua posição na empresa”, relembra.
Quando a fábrica também vira escola
O crescimento no interior do Paraná trouxe outro desafio: formar profissionais para uma atividade industrial especializada.
Segundo Raquel, parte dos trabalhadores aprendeu dentro da Fluvimar desde tarefas como rebitagem e soldagem de alumínio até processos envolvidos na fabricação de embarcações maiores. Alguns atravessaram praticamente toda a trajetória da companhia: há funcionários com 30 e até 34 anos de casa.

Essa relação ganhou outro significado para a família depois do falecimento do fundador. Raquel conta que ouviu profissionais relatarem como haviam chegado jovens à empresa, aprendido um ofício e construído suas vidas a partir daquele trabalho.
“Depois do acidente do meu pai, a gente ouviu muitos relatos de pessoas que disseram: ‘Ele mudou a nossa vida’, porque ele foi um pai que ensinou a gente a trabalhar, que ensinou a gente a construir”, afirma.
Da odontologia para os barcos
Enquanto Jorge construía a empresa, os filhos seguiram inicialmente outros caminhos. Por conhecer de perto as dificuldades de empreender, ele os incentivou a estudar. Raquel e a irmã formaram-se em odontologia; o filho mais novo seguiu a medicina.
“Trabalhei como dentista durante dez anos. Nem passava pela minha cabeça seguir na empresa”, explica Raquel.
A expansão da empresa acabaria aproximando a filha do negócio. Yolanda, sua mãe e professora de formação, já havia passado a atuar na administração. Raquel tentou conciliar o consultório com a Fluvimar, até perceber que precisaria escolher. Alugou o espaço onde atendia e entrou definitivamente na companhia.
Foi uma mudança profissional, mas também de perspectiva. Ela havia crescido entre barcos, porém conta que entrar no parque fabril como parte da operação fez com que enxergasse pela primeira vez a dimensão do que o pai havia construído. Dos modelos menores que acompanharam os primeiros anos às linhas de produção de embarcações maiores, a empresa que conhecia desde criança havia adquirido outra escala.

“Foi um privilégio ver que dele saiu tudo isso. Mesmo sem uma formação técnica, ele foi um desbravador, acreditou no potencial do produto que tinha na mão”, diz Raquel. “Hoje eu sou formada em odontologia, mas amo trabalhar na Fluvimar, amo ver cada peça ser montada, ser construída.”
O legado depois de Jorge
Jorge Manuel Rodrigues Oliveira morreu em 19 de agosto de 2026, aos 70 anos, após um acidente de motocicleta durante uma viagem pela Bolívia. Ele estava em uma expedição com amigos que tinha como destino a região de Machu Picchu.

Quando o acidente aconteceu, Yolanda e Raquel já participavam da administração. Os outros filhos chegaram a discutir se deveriam se aproximar da operação, mas a família decidiu manter a estrutura que vinha funcionando. A empresa seguiu com mãe, filha e a equipe que já fazia parte do negócio.

A continuidade ganha um significado particular neste mês. Jorge e Yolanda completariam 40 anos de casamento em 26 de setembro. Raquel descreve a relação dos pais como uma parceria marcada por amizade, cumplicidade e pela vida construída lado a lado.

Há ainda pequenas histórias que conectam o fundador à empresa que permanece. Raquel conta que a Fluvimar recebe relatos de embarcações fabricadas há décadas que continuam em uso. Recentemente, segundo ela, chegou do Paraguai a história de um barco com cerca de 25 anos ainda em operação.
“São histórias que descrevem a preocupação de nosso pai com a construção dos produtos. Eu até brincava: ‘Pai do céu, dura muito!’”, fala a CEO da Fluvimar.
Jorge foi morar no céu, como descreve a família carinhosamente, mas os barcos continuam saindo da fábrica. Agora, pelas mãos da família, que continua a escrever a história que ele começou há 35 anos e transformou em legado.
Mais informações: https://fluvimar.com.br/

